|
No dia 23 de abril dentro do Ilê Axé Xangô Menino ele,
"montado em seu cavalo branco", chegou de mansinho.
O ar quente que bafejava no pátio somava-se ao calor
humano dos médiuns e dos freqüentadores da casa estabelecendo um ambiente de
cumplicidade. Era a quentura de Ogum que já se manifestava. A festa transcorre
nesse clima harmônico.
O terreiro parecia estar em outra dimensão. Era tão
forte e tão perto a presença de Ogum, para todos os lados que se olhava ali
estava ele, nos estandartes presos à parede, em sua imagem no altar junto a
Jesus Cristo (Oxalá) e a São Jerônimo (Xangô), no olhar dos filhos de santo, no
semblante da assistência e principalmente, na fala de Banda Silê. Expressões
que reafirmavam nossa fé, devoção e homenagem.
A consagração das espadas foi além do ritual
litúrgico, foi uma aula sobre Umbanda. Entusiasticamente, Banda Silê, ao contar
um pouco da história desse santo, enaltece sua magnitude, explicando de como São
Jorge se rebelou contra o regime imposto repartindo sua riqueza com os menos
favorecidos, o que lhe custou a vida. Falou também do sincretismo com Ogum, o
orixá do ferro e da tecnologia.
Se Ogum, orixá
africano não podia ser cultuado, pois os brancos colonizadores consideravam
como bruxaria, São Jorge, santo católico, ocupa seu lugar simbolicamente. Uma
simbologia que culmina numa simbiose a qual a Umbanda acolhe sem problemas.
São Jorge e Ogum se unem pelo caráter lutador e
destemido, e também pelo uso que fazem dos instrumentos de ferro e aço, como a lança,
para se defender dos inimigos.
O babalorixá da casa pegando o gancho do sincretismo
nos fala do surgimento da Umbanda, segundo ele, ela nasce após a morte dos
primeiros negros que chegaram aqui no Brasil. Ao desencarnarem em solo
brasileiro aqui permanecem como espíritos, começando a se incorporar nos negros
que estavam na senzala.
A noite era de festa e de alegria, nada mais próspero
para alegrar uma festa senão a figura de Exu. Assim, o primogênito de Ogum que
compartilha com ele os caminhos, as estradas, se faz presente com seu riso
contagiante e sua animação, preparando o ambiente para a vinda do homenageado
da noite.
Após reverenciarmos os nossos guardiões, ainda
sentindo em nossos corpos os fluídicos benéficos deixados por eles, chegamos ao
momento tão esperado: a consagração das espadas, nessa hora o barracão
esverdeia-se. O exército de filhos de santo, todos de branco empunhando as suas
espadas, juntamente com a assistência, louvou o santo guerreiro. A oração de
São Jorge foi lida em voz alta e uníssona, os fogos anunciaram a chegada do
orixá das causas impossíveis.
O verde das espadas vai, pouco a pouco, cedendo lugar
ao brilho do azul escuro dos fios de contas dos filhos de Ogum. Seus gritos,
propagando a sua passagem pela terra, ecoam por todo o espaço do terreiro. Em
seu gesto de empunhar a espada tocando no ombro esquerdo, ele espalha energias
positivas a todos os presentes. Os cavaleiros de Ogum, cada qual de sua
falange, comemoravam o seu dia.
Depois de uma noite de tanto energia positiva (axé), as
festividades se encerraram sobre o olhar cúmplice da lua crescente, a lua da
prosperidade aquela que nos enche de esperança. A lua de São Jorge imortalizada
nos pontos e canções profanas, a companheira dos viajantes em tempo de solidão,
a guia dos errantes.
Assim,
com muita alegria e felicidade saudamos Ogum e São Jorge e que eles nos
protejam hoje e sempre.
Ver
Álbum de fotos
|